"Tempos Modernos" de Chaplin e "Maquinaria e Trabalho Vivo" de Marx

O tipo de linha de montagem retratado em “Tempos Modernos” foi desenvolvido por Henry Ford no início do século XX e portanto é pós-Marx (que escreveu sobre a produção e industrialização das fábricas em meados do século XIX). No entanto, através do modelo de Ford, nós podemos ter um exemplo do que Marx temia com os efeitos da mecanização sobre o trabalhador. 

Marx afirma que de ponto de vista do sistema, é exigido do trabalhador, produtos sem qualidades especificas, ou seja, um produto que no primeiro momento não tenha uma utilidade explicita, que seja incompleto. A montagem final dos produtos caberiam as próprias maquinas, uma vez que não interessaria ao capitalista que o trabalhador soubesse o valor do produto. Ele diz que isso subtrai as especialidades do trabalhador surgidas mediante a divisão do trabalho e por consequência resulta em uma depreciação da própria capacidade de trabalho do homem. 

Em “Maquinaria e Trabalho Vivo” Marx diz: “Trata-se para o trabalhador não somente da eliminação da especialização e da depreciação de sua capacidade de trabalho, mas da eliminação desta mesma parte cuja flutuação é constante e pertencente a ele como sendo sua única mercadoria — a eliminação de sua capacidade de trabalho. Capacidade que se coloca como dispensável ante a maquinaria, seja porque cabe a esta última a realização completa de parte do trabalho, seja porque diminui o número de trabalhadores que assistem diretamente à maquinaria. ”


Esse retrato cômico de Chaplin de um trabalhador de linha de montagem ilustra a visão de Marx a respeito dos efeitos da mecanização sobre o trabalhador, devido à divisão do trabalho. Aqui as máquinas não ajudam o trabalho de Charlie, mas sim determinar a velocidade e as exigências da produção. Todas as maquinas são feitas para aumentar a produção e reduzir os custos, fazendo com que o processo de trabalho seja inteiramente alheio ao controle do trabalhador. 

No filme, Charlie é incapaz até mesmo de parar para espirrar, sem causar transtornos na linha de produção. O argumento de Marx sobre o produto do trabalho como poder que confronta o trabalhador é capturado na cena em que Charlie é sugado para dentro da máquina, e passa pelas engrenagens e rodas. 

Além disso, a cena demonstra como a linha de montagem vai transformando Chaplin de um homem para uma máquina, até ao ponto em que ele enlouquece em decorrência do trabalho repetitivo e passa a ver tudo ao seu redor como uma parte de seu trabalho. Ele literalmente se torna uma máquina de apertar de parafusos.